Resposta rápida: é recomendado ter mais de um coelho?
Não é obrigatório, mas faz bem. Um coelho só, morando com a família e recebendo atenção todo dia, vive muito bem. Com outro coelho ele brinca mais, exerce os instintos e tem companhia da própria espécie. A dupla que eu indico sempre é macho e fêmea. A segunda opção são duas fêmeas.
Aqui no criatório eu vendo dupla, de acordo com o que a família busca. Quem quer duas irmãzinhas, a gente separa duas irmãs já no ninho. Quem quer um casal para ter filhotes no futuro, eu separo animais sem parentesco, para que possam procriar sem consanguinidade.
Coelho sozinho fica triste? O que um segundo coelho acrescenta
Coelho sozinho, com a família presente e atenção todo dia, vive bem: ele não tem necessidade de outro coelho. O que faz mal é passar o dia preso, sem espaço e sem ninguém olhando para ele. O segundo coelho acrescenta alguém da mesma espécie para deitar encostado, ser limpo e correr junto, comportamentos que o coelho doméstico herdou do selvagem, que vive em grupo.
Num estudo britânico publicado em 2008, coelhas de laboratório se esforçaram quase tanto para ficar perto de outra coelha, mesmo separadas por uma tela, quanto para chegar à comida. E o Royal Veterinary College, faculdade de veterinária inglesa, viu num abrigo que 8 de 15 coelhos sozinhos mordiam a grade, contra nenhum dos 30 que viviam em dupla. Repare que eram coelhos de abrigo, sem família por perto: é o cenário de isolamento, bem diferente do coelhinho solto dentro de casa.
Aqui no blog eu já respondi que o coelho pode ficar sozinho em casa o dia inteiro. Aquela resposta é sobre a família sair para trabalhar: com feno, água, ração e bandeja garantidos, ele dorme boa parte do dia e fica bem. Ela continua valendo. Mas se a casa fica vazia o dia todo, todo dia, é esse coelho que mais aproveita um parceiro.
Qual a melhor combinação: casal, duas fêmeas ou dois machos
A castração entra de um jeito diferente em cada combinação, e é aqui que muita família se confunde.
- Macho e fêmea: é a dupla que eu indico sempre. Animais do sexo oposto naturalmente se dão bem, pela própria preservação da espécie. Se a família não quer filhote, castrar só o machinho é o suficiente: não terá filhotes.
- Duas fêmeas: se dão bem juntas, mesmo sem castração. É comum que elas sejam grandes parceiras. É a opção de quem não quer fazer castração nenhuma.
- Machos: só castrados, e aí pode ser quantos a família quiser. Dois machinhos sem castrar eu não recomendo, e o motivo vem logo abaixo.
Por que dois machos sem castrar brigam
Quando os machinhos atingem a maturidade sexual, é comum que disputem território para mostrar quem é o mais forte, o macho predominante, o alfa. Esse conflito aparece por volta do quinto mês de vida, com a carga hormonal, e não é nada interessante: pode machucar o animal, e só termina quando um se torna submisso ao outro. Coelho morde de verdade e arranca pelo.
Uma observação à parte, para não misturar assuntos: castrar a fêmea não é condição para ela conviver com outro coelho, mas tem um motivo de saúde. A coelha não castrada tem risco alto de tumor no útero com o passar dos anos, como eu mostro no texto sobre quanto tempo vive um coelho. Essa conversa é com o veterinário de exóticos, separada da escolha da dupla.
O calendário da dupla: do filhote à convivência
O filhote chega em casa antes da idade de castrar, então vale olhar o caminho na ordem em que ele acontece. Duas irmãs são o caso simples: podem seguir juntas a vida toda, sem castração. Só que, em filhote muito novo, diferenciar macho de fêmea é difícil, e às vezes a família acha que tem duas fêmeas e só descobre o macho quando a ninhada aparece. Por isso eu separo as irmãs ainda no ninho.
Para casal ou para machinhos, o calendário é este.
- Até 4 meses: ainda são filhotes e podem ficar juntos, sem briga e sem risco de procriar.
- Antes do quinto mês: separe. É quando chega a maturidade sexual. Os machinhos começam a disputar território, e o casal passa a poder reproduzir.
- Entre 5 e 8 meses: castração do macho, com veterinário de animais exóticos. No caso de dois machos, castram os dois.
- Pelo menos 1 mês depois da cirurgia: o macho não fica junto da fêmea sem a sua supervisão, e só fica com ela depois que o veterinário que fez a cirurgia confirmar que pode.
- Depois disso: a dupla é reapresentada em ambiente neutro, seguindo o passo a passo mais abaixo. Machos castrados também voltam a conviver bem.
Como é a castração do macho e o mês de espera
A castração do macho é muito menos invasiva do que a da fêmea. É uma cirurgia externa, simples, e muitas vezes o coelhinho nem precisa ficar internado: volta para casa no mesmo dia.
O cuidado está no pós-operatório, porque o sucesso da cirurgia passa pela cicatrização. Por isso eu recomendo, no mínimo, um mês sem contato direto com a fêmea, ou seja, sem deixar os dois juntos sem a sua supervisão. Assim o machinho não tem pico de energia nem se movimenta demais a ponto de ter alguma complicação. Antes de deixar o casal junto de vez, confirme com o veterinário que fez a cirurgia que está tudo liberado.
Coelho adulto com filhote: pode?
Pode. Dois coelhos podem ser apresentados um ao outro em qualquer fase da vida e vão ter um bom convívio, independente de quando forem juntados. O que decide o sucesso é o processo de adaptação.
Se você tem uma coelha adulta e quer trazer um filhote, apresente os dois num ambiente neutro, para ela não sentir que o espaço dela foi invadido. Feito assim, ela vai adotar esse filhote, e eles seguem juntos até o pequeno crescer e os dois serem adultos completos. Se forem de sexos opostos e não castrados, vale o mesmo calendário: separe antes do quinto mês e só junte de novo depois da castração do macho.
Como apresentar dois coelhos, passo a passo
O passo a passo vale para qualquer apresentação: dois adultos, adulto com filhote ou a dupla que foi separada para a castração. É um processo gradual, sob a supervisão do tutor, de pelo menos 15 dias.
- Confira se a dupla está pronta: no casal, o macho castrado, com pelo menos 1 mês de pós-operatório e liberado pelo veterinário que fez a cirurgia; entre machos, todos castrados; duas fêmeas podem ser apresentadas sem castração. Os dois precisam estar saudáveis.
- Escolha um ambiente neutro, um lugar que nenhum dos dois nunca frequentou. Como o espaço não é de nenhum deles, ninguém briga para defender território.
- Leve os dois coelhos para lá e deixe que se conheçam, sempre com você olhando. Nos primeiros dias, encontros curtos.
- Repita todos os dias, aumentando o tempo juntos aos poucos, por pelo menos 15 dias.
- Coloque tudo em dobro no ambiente: dois esconderijos, duas vasilhas de água, dois montes de feno. Assim ninguém precisa disputar nada.
- Se vier briga de verdade, separe na hora com uma toalha ou um papelão, nunca com a mão, e tente de novo no dia seguinte, com um encontro mais curto.
- Quando os dois já se entendem no ambiente neutro, um passa a frequentar o espaço do outro: a gaiola, o cercado, a casa do outro.
- Com a amizade feita, os dois podem dividir o mesmo espaço. Continue de olho nos primeiros dias.
Briga ou acerto de hierarquia? Como diferenciar
Nos primeiros encontros vai ter perseguição e montada, e isso assusta quem nunca viu. Quase sempre são os dois decidindo quem manda, o que é natural entre coelhos. Um mandar no outro é normal; agressão, não.
- Normal, desde que não aumente: perseguição curta, uma mordiscada leve, um montar no outro. No casal, o macho castrado montando muitas vezes é sinal de que a relação está se formando.
- Dupla formada: deitam encostados, um limpa o outro, comem juntos e passam horas lado a lado sem conflito.
- Hora de separar: briga embolada, rosnado, pelo arrancado em tufo, mordida, perseguição longa ou que se repete sem parar.
- Hora de ir mais devagar: se em toda sessão você precisa separar os dois, volte a encontros mais curtos no ambiente neutro. Se não melhorar, converse com um veterinário de exóticos.
Depois que a dupla se forma
Tenho um cliente que tem um coelho de cada raça que eu trabalho: um Netherland Dwarf, um Mini Lion Head, um Mini Lop Uruguaio e um Gigante de Flandres. São quatro machos, os quatro castrados, que passaram por adaptação gradual. Hoje são parceiros e dependem da companhia um do outro: dormem juntos, se aquecem juntos, vivem juntos. E tenho vários clientes com casal, macho castrado, sem querer reprodução, que vivem em perfeita harmonia.
Dupla formada também tem seus dias: numa pesquisa da Universidade de Bristol com 1.254 tutores, 1 em cada 4 coelhos acompanhados brigava de vez em quando. Desentendimento rápido acontece; briga com ferimento pede separação e veterinário. E evite separar a dupla por muito tempo, inclusive para ir ao veterinário, porque isso pode obrigar a apresentar tudo de novo.
Raças e tamanhos diferentes podem viver juntos?
Podem. Um anão e um gigante vão viver bem juntos, independente da raça, e não há nenhum tipo de complicação quanto a isso. O cliente dos quatro machos que contei acima é a prova, do Netherland Dwarf, com cerca de 1 kg, ao Gigante de Flandres, que pode chegar aos 10 kg.
Só um detalhe para quem monta casal de raças diferentes: se eles procriarem, vai nascer um filhote mestiço. Se a ideia é ter filhotes de raça, o casal precisa ser da mesma raça.
Lá fora a experiência é parecida. A House Rabbit Society, associação americana de coelhos de companhia, conta que duplas de anão com gigante são bem comuns e que muitas vezes quem manda é o menor.
Quando não vale a pena ter dois
Prefiro que a família pense nisso antes de levar. Dois coelhos são duas vidas de 8 a 12 anos cada, uma consulta por ano para cada um no veterinário de exóticos, a castração do macho quando a dupla pede e o dobro de cuidado quando um adoece.
Espaço costuma pesar menos do que se imagina: a RWAF, associação britânica de bem-estar de coelhos, recomenda o mesmo espaço mínimo para um ou para dois, com tudo em dobro lá dentro. Com Gigante de Flandres, a conta é outra.
- Quando o orçamento só fecha para um. Feno, ração e veterinário aumentam, e dois machos significam duas castrações.
- Quando o espaço é só uma gaiola. Dupla precisa de área para um se afastar do outro quando quiser.
- Quando o coelho que você já tem está doente. Espere ele se recuperar antes de qualquer apresentação.
- Quando a ideia é ter dois para poder ficar mais tempo fora. O segundo coelho faz companhia ao primeiro, mas não troca o feno, não limpa a bandeja e não percebe quando o outro parou de comer.
E se um dos dois morrer?
O coelho que fica sente a falta. É comum ele ficar mais quieto, mais parado, comer menos e procurar o companheiro pela casa.
Associações de coelho recomendam deixar o sobrevivente ver e cheirar o corpo do companheiro por um tempo, para ele entender a ausência. Se a morte foi na clínica, dá para trazer o corpo para casa e colocar no espaço deles. Não encontrei estudo sobre isso; é uma prática que tutores e abrigos contam que ajuda.
O ponto de atenção é o apetite. Coelho que para de comer ou de fazer cocô é emergência do mesmo dia, com ou sem luto. Mantenha a rotina, fique mais por perto e olhe a bandeja com cuidado nessas semanas.
O sobrevivente pode seguir bem sozinho com a família presente. Se a decisão for por outro parceiro, a idade não impede, e o processo é o mesmo da primeira vez.
Perguntas frequentes
É recomendado ter mais de um coelho?
Não é obrigatório. Um coelho só já é suficiente e vive bem com a família presente, porque não tem necessidade de companhia da mesma espécie. Com dois, ele brinca mais e exerce os instintos com alguém igual a ele. A dupla que eu indico é macho e fêmea; a segunda opção são duas fêmeas.
Coelho sozinho fica triste ou deprimido?
Não, se a família está presente. Um coelho só, solto em casa e com atenção diária, vive bem. O que faz mal é isolamento de verdade: passar o dia preso, num cômodo vazio, sem interação. Nesse cenário o coelho tende a ficar apático e a repetir comportamentos de estresse, como roer a grade.
Dois coelhos machos podem viver juntos?
Desde que todos sejam castrados, sim, e o número de machos fica a critério da família. Sem castração eu não recomendo: com a maturidade sexual vem a disputa para ver quem é o alfa, e essa briga pode machucar até um dos dois se submeter.
Duas coelhas podem viver juntas?
Podem, e se dão bem mesmo sem castração. É comum que duas fêmeas sejam grandes parceiras, e é a dupla que eu indico para quem não quer fazer castração. A castração da fêmea continua tendo um motivo de saúde, o risco de tumor no útero, que vale conversar com o veterinário de exóticos.
Preciso castrar os dois para ter um casal sem filhotes?
Não. Para o casal não ter filhotes, castrar só o macho é o suficiente. A cirurgia dele é simples e externa, e muitas vezes ele volta para casa no mesmo dia. Depois, deixe passar pelo menos um mês antes de ele ficar com a fêmea sem supervisão, para a cicatrização correr bem, e confirme com o veterinário que fez a cirurgia que o macho já pode ficar com ela.
Quanto tempo leva para dois coelhos se acostumarem?
Conte com pelo menos 15 dias de adaptação gradual, com encontros supervisionados num ambiente neutro, onde nenhum dos dois esteve antes. Depois que se entendem lá, um passa a frequentar o espaço do outro. Você sabe que deu certo quando os dois deitam encostados e se limpam.
Posso comprar dois filhotes e deixar juntos?
Duas irmãs, sim, a vida toda e sem castração. Casal ou dois machinhos podem ficar juntos até os 4 meses. Antes do quinto mês, separe: é quando os machos começam a brigar e o casal passa a poder reproduzir. O macho é castrado entre 5 e 8 meses e, depois de pelo menos um mês de pós-operatório e da liberação do veterinário que fez a cirurgia, a dupla é reapresentada em ambiente neutro.
Coelho adulto aceita um filhote?
Aceita. Coelhos podem ser apresentados em qualquer idade. Se você tem uma coelha adulta, apresente o filhote num ambiente neutro, para ela não sentir o espaço dela invadido. Ela vai adotar esse filhote, e os dois seguem juntos até virarem dois adultos. Se forem de sexos opostos e não castrados, separe antes do quinto mês e só junte de novo depois da castração do macho.
Coelho pode viver com porquinho-da-índia?
Não é recomendado. O coelho pode carregar uma bactéria respiratória, a Bordetella, que muitas vezes não causa nada nele e pode matar o porquinho-da-índia. A alimentação também é diferente, e o coelho pode intimidar e machucar o porquinho. Companhia para coelho é outro coelho.
O que fazer quando um dos coelhos morre?
Deixe o sobrevivente ver e cheirar o corpo do companheiro por um tempo, prática que associações de coelho recomendam. Nas semanas seguintes, mantenha a rotina, fique mais presente e preste atenção no apetite e no cocô: coelho que para de comer é emergência do mesmo dia. Um novo companheiro pode vir depois, apresentado com o mesmo cuidado da primeira vez.
Um coelhinho sozinho, bem cuidado e com a família por perto, tem uma vida boa. O segundo entra para deixá-la mais rica, e quase tudo se decide antes de levar: macho e fêmea, com o machinho castrado se a família não quer filhote, ou um casal sem parentesco para quem quer ninhada; duas fêmeas; ou machos, todos castrados. Escolhida a dupla, o resto é paciência: respeitar o calendário da castração e dar pelo menos 15 dias de adaptação em ambiente neutro. Se você está em dúvida entre levar um ou dois, ou já tem um coelho e quer saber qual parceiro combina com ele, me conta pelo WhatsApp o sexo, a idade e o espaço de vocês, que eu te ajudo a montar a dupla.
— Gustavo Nogueira, fundador do Criatório Imperial
